terça-feira, 18 de novembro de 2008

Os gastrochatos - Por Walcyr Carrasco

Esta aí um texto que gostaria de ter escrito, como já escreveram segue de complemento ao post anterior.



Todo dia surge uma nova moda culinária! Muitos adoram demonstrar seus conhecimentos sobre cada novo tempero, ingrediente, chef ou tendência! São os gastrochatos. Um dos pratos mais falados é a tal da "espuma". Faz-se espuma de tudo, até de salmão. Fico enjoado só de pensar em espuma de peixe! Um amigo comentou, entusiasmado:

– Comi o ovo perfeito!

É um ovo cozido a determinada temperatura durante horas. Mas ovo não tem sempre gosto de ovo? Na esteira vêm bolinhas que explodem na boca e outras novidades. Fruto da culinária do catalão Ferran Adrià. Reservas para seu restaurante, na Espanha, só com dois, três anos de antecedência. Furar a fila é mais difícil que fazer tomografia no INSS. Adrià realiza alguns eventos no exterior, mas poucos. Tem seus seguidores, sempre em endereços de luxo. Por estatística, é impossível que tanta gente tenha provado suas receitas, mas é chique falar a respeito. Há quem pague fortunas para comparecer a eventos culinários. E depois se exibir. Vi o cardápio de um jantar caríssimo, disputado a tapas. Entre outros itens, lá estava: tartar de tomate. Não passa de tomate cru temperado. O gastrochato jamais admitirá ter gasto uma fábula em um prato tão simples. Prefere o nome difícil: tartar! Falando das palavras: inventaram agora o "caviar" de berinjela, de abobrinha etc. etc... Caviar de verdade vem das ovas de esturjão. O resto são bolinhas pequenininhas. Quem ouve a respeito sofre ao imaginar o que está perdendo na vida. Eu digo: berinjela crua! Outra moda é a tal da "finger food". A comida é servida em porções mínimas! Para degustação! Fui a um jantar em que tudo vinha em potinhos: um dedinho de paella, outro de macarrão, e assim por diante. Passei fome. Se minha mãe servisse tão pouco, seria chamada de pão-duro. Hoje virou coisa refinada!

Também existem os gastrochatos da saúde. Os mais extremos são os da linha vegan. É o vegetarianismo radical. Uma conhecida jamais usa em vegetais uma faca que tenha cortado carne, porque está "impura". Os vegans não desfrutam nenhum derivado de animais. Nem mel. Um amigo entrou em um novo restaurante. Prato do dia: moqueca de tofu. Eu teria fugido. O inocente sentou-se. Veio tofu no azeite de dendê. Dá para imaginar coisa menos apetitosa? Reclamou. Levou bronca da dona.

– Pensei que era um tofu refogado...

– Você devia saber que moqueca tem azeite de dendê!

Correu até a hamburgueria mais próxima. Em outra época, a moda era a macrobiótica. Havia um regime à base unicamente de arroz integral que prometia deixar a saúde impecável. Um conhecido foi parar no hospital, com desnutrição. A explicação do mestre:

– Você não fez direito.

Um amigo natureba adora cozinhar para as filhas: tofu frito com cebolinha e arroz integral. Comentou, espantado:

– Descobri que elas comem bife escondido na casa das amigas!

– Você está criando duas carnívoras – expliquei. – Quem cresce comendo tofu vai se esbaldar na primeira churrascaria até antes de aprender a dirigir!

Vem mais por aí. Segundo descobertas científicas, quanto menos se ingere comida, mais se vive. É fato. Há um movimento nos Estados Unidos cujos membros comem o mínimo possível. Li numa reportagem: os seguidores fizeram um banquete em torno de fatias de beterraba! Um homem era alaranjado, com a dieta à base de cenoura! A moda vai chegar, se já não chegou ainda! Comer com os amigos é tão bom! Mas o gastrochato transforma o prazer em teoria. E a culinária em uma espécie de religião! Gastronomia é uma arte. Mas pode virar uma chatice.

e-mail: walcyr@abril.com.br

9 comentários:

Odete disse...

Otimo texto! Que bom que voce o publicou.

tks

Tatiana disse...

Adorei o texto !! e isso ai cozinhar e Arte ...mas sem chatisse !!

PS:Vou tentar uma dessas receitas com os ingredientes gringos ...e acho que vou comecar a Fazer Arte de verdade mesmo !

bjos

Anônimo disse...

Grande Leo , bom dia !
Excelente texto...a mais dura realidade ! he he he
Aproveito para agradecer o texto
sobre culatello / proscuitto.
Em breve mandarei os comentários sobre o restaurante Anita e Odeon.
Abçs.
Julião

Anônimo disse...

Muito legal o texto!
Acrescentando, recebi do slow food ontem:
"Minhas memórias de verão têm cheiro doce de melancia. Lembro bem das tardes quentes das férias de janeiro, quando sentava na escada da casa de minha avó, os pés descalços, o corpo inclinado pra frente, um pedaço grande de melancia no espaço entre os joelhos, as mãos meladas e os pingos de suco atraindo as formigas no chão. Não sei se hoje alguém lembra de uma estação do ano pelo perfume ou pelo gosto de uma fruta, mas sei que é possível encontrar melancias nos supermercados e nos restaurantes já em agosto. Porque melancias não precisam mais esperar o verão para serem colhidas. Os alimentos viajam de um lado a outro e contam com as novas tecnologias do campo e com a melhoria genética para poderem estar presentes o ano todo nas gôndolas dos supermercados. As feiras e mercados, antes abastecidos por produtos frescos e locais, foram preteridos às facilidades dos super e hipermercados que oferecem alimentos de todos os cantos do mundo, durante todos os meses do ano. Nos afastamos da natureza, trocamos os quintais de casa pelas janelas e varandas dos apartamentos e quase não temos mais tempo para andar pelas ruas, olhando para cima, admirando um pé carregado de goiaba ou um ipê em flor. Com tudo isso, a sazonalidade perdeu a importância. Nosso cardápio não depende mais das safras e entressafras. Na hora das compras não nos guiamos mais pela oferta do campo e sim pelos nossos desejos."
Abraço,
Fernando

eraldo disse...

E aí Leo ?
Excelente texto. Matei a saudade do Walcyr Carrasco. Estou com dificuldade em me adaptar a culinária Americana. Só indo para NY as vezes para comer num bom restaurante !
Um abraço,
Eraldo

Talula disse...

Léo, anotei a tua dica. Vou procurar ainda esse final de semana! Obrigada

irene disse...

Leo,
to contigo e nao abro !
..
outro dia a julia foi almocar na sua casa e eu tava querendo ir junto fazer esse trabalho de grupo,,, mas dai descobri q nao era vc q ia pilotar o fogao :-(
ab
Irene

Manuela © disse...

Adorei o texto! Retrata bem as modernices culinárias dos dias de hoje, mas a verdade é que comidinha boa mesmo é a antiga, a das nossas mães e avós! :)

googler disse...
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